- Quem é essa moça bonita aqui?
- Essa foto foi por causa do dia que a gente foi na casa da Bia!
A menina projetou-se na foto que sua mãe lhe mostrava. Na foto, apenas 4. Agora, 5 anos de idade, havia perguntado a sua mãe no dia do seu aniversário se seria aquele o dia que ia ficar maior de altura. Os dentes separados, uma camisetinha rosa que deixava os braços rechonchudos a mostra, uma trança e a cara gordinha faziam do sorriso dessa pequenina uma preciosidade. Estava eu no ônibus a observar tal cena. A mãe, a irmã, e Talita, a menina, sentada no colo de uma das duas, não me lembro ao certo quem.
- Ela vai ficar linda, Carol - disse a mãe para a irmã - o único problema de Talita é a sombrancelha um pouco grossa aqui em baixo - passou a mão e a menina acompanhou com os olhos.
- Pois é, mãe.
Talita olhou para o nada com um sorriso bobo. Projetou todo um futuro agradável, onde o seu único problema seria fazer as sombrancelhas uma vez ao mês. Viraria uma prostituta dali uns 15 anos.
A projeção em uma fotografia de futuro.
Acorde elivelton são cinco da manhã e você tem que fazer café e ir pra obra que você tá fazendo e já está terminando vá para o ponto pegar o cinquentetrês e parta já pro teu trabalho corre logo bota a camisa o boné o chinelo de dedo faz essa barba não deixa o bigode faz você parecer ainda mais pobretão e a gente não quer passar essa imagem pros seus patrões quem sabe um dia a gente possa ser rico elivelton e comprar aquela tevê de prasma que eu sempre sonhei esse é o nosso projeto.
Elivelton subiu no ônibus que eu estava. Sentou no banco oposto ao de Talita.
- Quem é essa moça bonita aqui?
Elivelton olhou profundamente aquela meia-família e riu discretamente da mocinha. Obviamente olhou pras pernas de Carol, a irmã, que usava um short muito pequeno. Mas o que queria mesmo era olhar Talita.
E se ao invés da tevê de plasma, Elivelton quisesse um filho? Calou-se o dia inteiro, na construção, na mesa de jantar, assistindo o jornal. De noite pôs em prática o seu plano de futuro.
Dali um mês viria a descoberta. Dali a nove, nasceria Jorge Adalto. Jorge pois era nome do jogador favorito de Elivelton, e Adalto era o nome do avô de sua mulher. Jorge Adalto. Jor-ge-a-dal-to. Soava como música aos seus ouvidos.
E é curioso como os olhares se ajudam. Não fosse o olhar pelo buraco da câmera, ou a foto sendo mostrada aos olhos de Talita, Elivelton não olharia pra lá, não teria um filho, não morreria tão cedo. Talita e os olhares previam o fim do pedreiro.
- Aí, Jorginho, olha essa foto aqui! Quem é esse rapaz bonito?
Jorginho projetou-se, olhou. Talvez tenha acertado.
- Aí, Jorjão, olha essa foto aqui, é esse cara que a gente tem que matar. Ferrou com a boca, denunciou pra polícia. E aí? A gente pega ele no final do culto da Assembléia de Deus, dá um teco nele, e vaza. O chefe falou que se ele não rodar, quem roda é nós.
Jorjão matou seu pai. Matou por medo de morrer.
Dali a dois anos, Jorjão seria Pastor Jorge Adalto, da Assembléia de Deus. Segundo os comungantes, todos humildes, ex-traficante e ex-drogado, agora profeta.
- Deus olha pra vocês, irmãos. Profetizem.
sábado, 17 de dezembro de 2011
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
um passo difícil
minha casa é o berço do mundo
meu olhar é pedreiro
o sol é o embalo do dia
a anestesia é o fim do pensar.
A cabeça é o invólucro do universo
o som é o ar
a fome é o que faz a comida
o amor é o espaço que há.
meu olhar é pedreiro
o sol é o embalo do dia
a anestesia é o fim do pensar.
A cabeça é o invólucro do universo
o som é o ar
a fome é o que faz a comida
o amor é o espaço que há.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
O estudo da essência
Antes de tudo é preciso ser.
E aí, sendo, criando ciso, ser algo.
Porque o predicado vem depois do sujeito,
mesmo que o vejamos antes, mesmo que
implícito ele seja.
O predicado não é sem o sujeito, onde já se viu?
O sujeito é como o verbo, "como o verbo" é predicado do sujeito,
e dentro daquela lógica de ser o que se faz, o sujeito em si, é, e ser é o que faz dele sujeito.
Sujeito aos predicados de ser, porque antes de tudo é preciso ser.
E o predicado diz justamente respeito ao nosso ser. A quem somos, ou ao que fazemos.
E a essência toma forma no choque e na síntese do proposto:
Sujeito e predicado num encontro
formam a essência.
Ô coisa difícil de descobrir.
E aí, sendo, criando ciso, ser algo.
Porque o predicado vem depois do sujeito,
mesmo que o vejamos antes, mesmo que
implícito ele seja.
O predicado não é sem o sujeito, onde já se viu?
O sujeito é como o verbo, "como o verbo" é predicado do sujeito,
e dentro daquela lógica de ser o que se faz, o sujeito em si, é, e ser é o que faz dele sujeito.
Sujeito aos predicados de ser, porque antes de tudo é preciso ser.
E o predicado diz justamente respeito ao nosso ser. A quem somos, ou ao que fazemos.
E a essência toma forma no choque e na síntese do proposto:
Sujeito e predicado num encontro
formam a essência.
Ô coisa difícil de descobrir.
domingo, 20 de novembro de 2011
Perdão, Parede
-Perdoe-me
é o que a parede me diz
e eu que pensei que ela só tinha ouvidos
agora tem boca, e pelas palavras, coração.
Um sorriso de canto responde
e reforça a estrutura da casa, que, obviamente
ainda seria sem a dita parede
mas ela está ali.
E foi o que eu pensei, assim:
as vezes Deus nos deixa viver
por redenção.
E a vida, quando não há mais sentido em mim
pros outros torna-se uma grande lição.
Portanto, quando eu me tornar parede,
inútil, imóvel e sem reação
quando eu padecer, idoso numa cama
que eu sirva pra pedir perdão.
é o que a parede me diz
e eu que pensei que ela só tinha ouvidos
agora tem boca, e pelas palavras, coração.
Um sorriso de canto responde
e reforça a estrutura da casa, que, obviamente
ainda seria sem a dita parede
mas ela está ali.
E foi o que eu pensei, assim:
as vezes Deus nos deixa viver
por redenção.
E a vida, quando não há mais sentido em mim
pros outros torna-se uma grande lição.
Portanto, quando eu me tornar parede,
inútil, imóvel e sem reação
quando eu padecer, idoso numa cama
que eu sirva pra pedir perdão.
sábado, 12 de novembro de 2011
Fluminense
Tudo o que a torcida venera
é o tanto guardado no peito.
Tudo o que se espera (desse jogo)
é que se jogue direito:
Meu deus! - diz o narrador
É mais um gol de bicicleta!
Fred dá cambalhota, dança, comemora
- e eu cá, do outro lado do televisor -
levando avante o tricolor.
Tudo o que se espera (desse jogo)
é que se jogue direito:
Meu deus! - diz o narrador
É mais um gol de bicicleta!
Fred dá cambalhota, dança, comemora
- e eu cá, do outro lado do televisor -
levando avante o tricolor.
domingo, 6 de novembro de 2011
Felipe
- É, Jorge. E como eu faço pra ir daqui ao centro?
- Pega o 45 sentido rua da Câmara.
- Desce no ponto da lanchonete?
- É, Felipe.
Naquele dia Felipe desceu no ponto errado, e não tinha o dinheiro pra voltar. A pé, solução escolhida, pensou na vida e no espaço.
Escreveu uma poesia no chão.
- Pega o 45 sentido rua da Câmara.
- Desce no ponto da lanchonete?
- É, Felipe.
Naquele dia Felipe desceu no ponto errado, e não tinha o dinheiro pra voltar. A pé, solução escolhida, pensou na vida e no espaço.
Escreveu uma poesia no chão.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Poema do chão
(Escrevi esse poema com giz, no chão de algum lugar)
Os passos que passam
Levam as flores
E do chão só restou o poema
E com os passar dos passos
As cores irão
Do poema, só restará o chão
Os passos que passam
Levam as flores
E do chão só restou o poema
E com os passar dos passos
As cores irão
Do poema, só restará o chão
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Culpem Leon
- Na verdade eu quis escrever mais uma das minhas histórias - disse Leon enquanto procurava uma posição confortável para sentar - mas me senti um pouco culpado.
- Que é disso, camarada? Leon, um dos maiores escritores que já conheci, o melhor da minha rua, de longe, dizendo que se sente culpado por escrever? - seu amigo Carlos replicou, e deu um gole na cerveja - Isso aí é viadagem, meu rapaz. Faça logo essa história que te atinge aí, e emociona todo mundo.
A verdade é que Leon era culpado, de fato. Seus livros publicados - todos romances de amor - emocionavam o público intensamente.
- E a verdade é que quis escrever uma história de amor com você, Geraldo! - gritou Luísa Cristina enquanto chorava, e as lágrimas escorriam no seu rosto - Ah, você acabou com a minha vida, destruiu tudo que eu tinha!
- Pelo amor de Deus, Luisa Cristina! Me perdoe, você é minha vida. Se você se for, não poderei viver! - ajoelhava-se Geraldo - Juro que me mato, me mato sim!
- Então se mate, Geraldo! Você é um desgraçado! Na hora de olhar para aquela mulher você não pensou que eu era sua vida, não é? Morra!
- Então se mate, Geraldo! Você é um desgraçado! Na hora de olhar para aquela mulher você não pensou que eu era sua vida, não é? Morra!
O romance entre Geraldo e Luisa Cristina, que termina com a reconciliação, uma redenção quase Cristã, vendera aos montes. E Leon quis, mas não quis, escrever mais uma de suas histórias. Passaram por sua cabeça nomes, situações, traições, brigas e estardalhaços. Seus romances eram jornal de cinquenta centavos.
- A verdade, Leon, é que eu cansei dessa vida do seu lado. - Alice arrumava as malas e marejava os olhos - você cheira pó o dia inteiro, na frente desse computador. Quando não está alto, está bêbado com Carlos. A culpa é toda sua.
- Então vai. - Leon via tudo embaraçado.
- A verdade, Leon, é que eu cansei dessa vida do seu lado. - Alice arrumava as malas e marejava os olhos - você cheira pó o dia inteiro, na frente desse computador. Quando não está alto, está bêbado com Carlos. A culpa é toda sua.
- Então vai. - Leon via tudo embaraçado.
- Eu até te amei, do jeito certo. Mas infelizmente não posso mais - Alice arrastou a mala até a porta - Vou seguir minha vida, e você siga a sua.
Alice arranjou um outro rapaz. Não é do tipo que todas as mulheres gostam, mas ele a tratou muito bem. Daí nasceu Roberto.
- Roberto! Eu não aguento mais suas traições! - Gritava e esbravejava Paula - Você vai pra rua hoje, vá morar com seus pais, o que você quiser! E tome, leve esses livros daquele ex-marido de sua mãe, só me fazem sofrer mais! Você acabou com a minha vida!
- Não, meu bem - NÃO ME CHAME DE MEU BEM! - não se vá, Paula, eu te amo muito, demais. Eu só terei olhos pra você, daqui pra frente! Nunca mais vou te trair. Se você for embora, a minha vida é que acaba. Juro que me mato, Juro!
Jornal do Cidadão
por cinquenta centavos, muita informação!
APAIXONADO SE JOGA DO DÉCIMO SÉTIMO ANDAR DO PRÉDIO!
Nessa quinta-feira, dia 27 de setembro, suicidou-se Roberto Almeida, que se jogou do décimo sétimo andar do Edifício Moura, na rua da Câmara, Centro. Por pouco, o corpo não atingiu uma velhinha que passava na hora do suicídio. A surpresa causou espanto dos transeuntes, assustou um motorista que causou um engavetamento na altura do edifício. Os parentes afirmam que Roberto apresentava sinais de profunda depressão devido a um recente divórcio. A perícia encontrou no seu sangue vestígios de cocaína, que indica que o sujeito estava drogado enquanto se lançou do último andar do Moura. Paula, a ex-mulher, não quis falar ao Jornal do Cidadão.
domingo, 2 de outubro de 2011
Jorge e as canções-encontros
Cada timbre é um encontro, Jorge. Cada canção. E não é pra você se deixar levar tanto assim, mas é pra não ter tanto o pé no cimento, coloque ele na terra, pelo amor de Deus pai. A caneca de café já esfriou, aliás, você bebeu ela pela metade, e a repousou na bancada da cozinha. Icaraí já não parece tão atraente assim. Mas finalmente, a ti parece que alguém te encontrou, e uma canção toca e reverbera no oco do seu apartamento à beira-mar. E chovem pensamentos, quanto será que foi o jogo do vasco, amanhã preciso entregar um trabalho, e a louça está toda pra lavar, veja só, essa música vai ficar repetindo na minha cabeça, acabou o açúcar, tome cuidado, rapaz, tome cuidado, Jorge. Tome cuidado com as canções que você anda ouvindo. Cada canção é um encontro. Te disse, ou você mesmo notou, quando o café ainda era quente, do que a felicidade fazia com o seu bairro, do que o mar fazia com os prédios. Agora, já enferrujado, vem me dizer dessas canções e encontros, que de fato são muito belos. Mas deixo pra você meu aviso, homem: Tudo o que você encontrar, durante toda a sua existência, necessariamente tem de te encontrar também. Caso contrário, não é en-contro, não é en-canto, não é canção. Olha pela tua janela, rapaz. O mar já enferrujou o teu toca-disco. Abre o ouvido e pálido perceba: a canção não toca, você só está com ela na cabeça, você nunca presenciou nada. E por mais triste que isso seja, Jorge, não há timbre. E cada timbre é um encontro.
Na vida, uma certeza se tem:
Tudo que a gente encontra,
encontra a gente também.
Na vida, uma certeza se tem:
Tudo que a gente encontra,
encontra a gente também.
sábado, 1 de outubro de 2011
Triste realidade
Era uma vez uma pessoa
que só sabia falar mentira
adivinhem só:
Ela não existia.
Quer dizer, ela até existia,
mas nunca existiu de verdade.
que só sabia falar mentira
adivinhem só:
Ela não existia.
Quer dizer, ela até existia,
mas nunca existiu de verdade.
domingo, 18 de setembro de 2011
#6
Um homem satisfeito
é um homem morto
Se um dia peço algo a Deus
é na certeza de ter algo a pedir depois
pois me desespero se tudo tiver
tudo
acaba sendo
nada
é um homem morto
Se um dia peço algo a Deus
é na certeza de ter algo a pedir depois
pois me desespero se tudo tiver
tudo
acaba sendo
nada
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sábado, 10 de setembro de 2011
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Vera Fulô
Vera queria era ser livre de verdade
e então se soltou
feito pétala de dente-de-leão
voou.
Não encostava em nada
não havia preocupação
mas perdeu-se o sentido
não havia mais tato
olfato, paladar,
visão, audição.
Porque tudo o que vinha de fora a prendia
a movia em uma direção.
Perdeu-se o vento, perdeu-se o sol
Perderam-se isca e anzol
Perdeu-se o azul, o preto e o lilás
Vera era livre, agora, mais.
E um tanto de tempo depois
Vera, que já havia se esquecido de viver
se afogou em páginas sartreanas
e a mágica virou náusea.
Deitou-se à relva
e antes de partir, pensou em seus botões:
"Liberdade é mais do que se soltar
muito pelo contrario, liberdade é se atar
ao mundo,
a algo,
a quem eu quiser amar.
E o que resta da minha liberdade agora
é uma profunda solidão
e a consciência de não existir
pois não há quem me cheire
não há quem me assopre
não há"
E morreu, sem ninguém perceber.
e então se soltou
feito pétala de dente-de-leão
voou.
Não encostava em nada
não havia preocupação
mas perdeu-se o sentido
não havia mais tato
olfato, paladar,
visão, audição.
Porque tudo o que vinha de fora a prendia
a movia em uma direção.
Perdeu-se o vento, perdeu-se o sol
Perderam-se isca e anzol
Perdeu-se o azul, o preto e o lilás
Vera era livre, agora, mais.
E um tanto de tempo depois
Vera, que já havia se esquecido de viver
se afogou em páginas sartreanas
e a mágica virou náusea.
Deitou-se à relva
e antes de partir, pensou em seus botões:
"Liberdade é mais do que se soltar
muito pelo contrario, liberdade é se atar
ao mundo,
a algo,
a quem eu quiser amar.
E o que resta da minha liberdade agora
é uma profunda solidão
e a consciência de não existir
pois não há quem me cheire
não há quem me assopre
não há"
E morreu, sem ninguém perceber.
domingo, 4 de setembro de 2011
Retiro quem disse
Diz-se ser o humano estandarte
de quando com muita sorte
canta-se algo bonito: a arte
crava suas facas no ponto de corte.
E aí, ser humano não mais é:
deu lugar ao que já vinha ardente
lá do fundo plano da fé,
Que aparece e some-segue em frente.
Ser uma no peito,
palavra que desatine,
retine no oco perfeito.
E somos desse jeito:
instrumento de expressão
de muito maior sujeito.
(E esse poema segue...)
de quando com muita sorte
canta-se algo bonito: a arte
crava suas facas no ponto de corte.
E aí, ser humano não mais é:
deu lugar ao que já vinha ardente
lá do fundo plano da fé,
Que aparece e some-segue em frente.
Ser uma no peito,
palavra que desatine,
retine no oco perfeito.
E somos desse jeito:
instrumento de expressão
de muito maior sujeito.
(E esse poema segue...)
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