Tomar uma caneca de café. É tudo o que eu queria. Na verdade nem tudo, porque gostaria de tomar um café ao lado dela, enquanto o sol batia na janela, e translúcido, chegava ao rosto e deixava mais clara a fumaça que saia da caneca quente. Daí seria perfeito, não fosse eu ter estragado todo o meu relacionamento e agora estar aqui, sozinho. Não me lembro há quantos dias não tomo banho e estou com esse mesmo moletom velho que ganhou um novo rasgado. E talvez tenha perdido um pouco mais da cor. Vejo que a vida é assim - empenhamos a nossa força pra desbotar e envelhecer. Não há razão em amar. O som que a tampa do meu pote de café faz é único, plástico no vidro, arranhando, duro e difícil de abrir. A parte pior do processo, talvez, seja tirar o café de lá: a boca do pote é menor que o meu pulso, e a colher, curta demais pra se encher facilmente. Então eu abro o pote, cujo barulho me dá nos nervos, e fico tentando achar um meio termo, um jeito de acoplar o meu pulso e encher a colher de café. Por em um coador de meia que está com aparência de molhado, dormiu na geladeira. Em dormir, não durmo há alguns dias, também. E o gosto do café é algo que eu preciso ter, não pra dormir, puramente, mas pra acordar. Pra vida. Afinal, tenho trabalho e tinha amigos. Ela me roubou o espaço, preencheu todos os meus cantos. Vi a minha própria imagem ao olhar a leiteira onde esquento a água que já dava sinais de ebulição. Pus a meia na boca da garrafa térmica, derramei a água cuidadosamente... e do outro lado saiu café. Um milagre digno de um Cristo, diga-se de passagem. Ao fim do processo, enfiei uma colher na meia e torci pra que o café saísse até a última gota. Até a última. Gota. A gota d'água foi quando ela fez um escândalo porque conversava com uma outra moça que havia conhecido um outro dia. Ela disse que eu traí ela. Acabou. Ridículo.
Derramei meu café na caneca vermelha e dei um gole. Eu havia mudado da água pro vinho.
sábado, 10 de agosto de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
A árvore das almas
se tudo o que for
sou verdade
matéria finita
é o que olho no espelho
que desperdício sou
pois se não há verdade
somos todos Deuses
que se vão com o tempo.
sou verdade
matéria finita
espírito eterno
sujeito a quem me fez assim
volátil
sábado, 9 de março de 2013
A vida não é
Lembro-me de minha mãe, no leito de morte, em um último suspiro, dizer: "Filho, a vida não é só poesia". E a ironia é que este foi o momento mais Hollywoodiano da minha vida, foi um vídeo-poema, se minha vida fosse um vídeo. Mas ela não é.
Aos sessenta eu fumaria charuto e saberia versar sobre qualquer assunto: entenderia tudo e todos e explicaria de uma forma que ninguém entende porque é tão pessoal...mas as pessoas no fim das contas absorveriam pouco e suficientemente para escreverem uma tese ou experimentarem um transe de tão metafopoético o que havia sido dito com tanta precisão. Aos cinco já tinha noção do que era poesia. Já rimava, ritmava, cantava muito desafinado, porém interessado no que aquilo tudo me proporcionaria. Sentimentos profundos, intensos e conhecimento além do imaginável. Brilho e luzes. Holofotes, sorrisos, poesia por felicidade.
Aos 24 seria poeta, músico, plástico, cineasta.
Aos 25 arranjei o emprego da minha vida numa empresa X. O salário era bom, alto.
Aos 26 vi que o estresse havia tomado conta do meu corpo. Era venoso, visceral, já era meu: o emprego que não queria, que não acreditava, a carreira que não almejava, o que não havia planejado. A intensidade dos sentimentos havia ido embora.
Aos 27 casei e aos 30 fui feliz pela primeira vez.
Não escrevia mais poesia. Não havia mais olhar clínico para desvendar a metafísica das coisas. O que sobrou de Deus foi só sua ajuda e confidência. Nunca mais daquelas conversas subvertidas. Minha mulher não dizia mais "eu te amo".
Minha mãe morreu e eu vi que nem tudo era poesia.
E daí em diante virei poeta, músico, plástico, cineasta. Do jeito que minha mãe era: sem notar.
Aos 60 eu almejo a aposentadoria porque não aguento mais meu emprego. Mas encontro beleza na constância. Minha mulher ainda está aqui. Meus filhos não mais.
Se a intensidade é uma batalha, a constância é a guerra. A intensidade torna-se vulnerável frente ao meu corpo cansado e carcomido pelas experiências de um mundo que suprimiu minha habilidade de desenhar.
Porém não sento mais em uma cadeira como um velho estúpido, grosseiro e arrogante que diz coisas bonitas. Posso dizer as feias, mas elas são constantes.
A vida não é tudo o que a gente pensa.
mas ela pode ser feliz.
Aos sessenta eu fumaria charuto e saberia versar sobre qualquer assunto: entenderia tudo e todos e explicaria de uma forma que ninguém entende porque é tão pessoal...mas as pessoas no fim das contas absorveriam pouco e suficientemente para escreverem uma tese ou experimentarem um transe de tão metafopoético o que havia sido dito com tanta precisão. Aos cinco já tinha noção do que era poesia. Já rimava, ritmava, cantava muito desafinado, porém interessado no que aquilo tudo me proporcionaria. Sentimentos profundos, intensos e conhecimento além do imaginável. Brilho e luzes. Holofotes, sorrisos, poesia por felicidade.
Aos 24 seria poeta, músico, plástico, cineasta.
Aos 25 arranjei o emprego da minha vida numa empresa X. O salário era bom, alto.
Aos 26 vi que o estresse havia tomado conta do meu corpo. Era venoso, visceral, já era meu: o emprego que não queria, que não acreditava, a carreira que não almejava, o que não havia planejado. A intensidade dos sentimentos havia ido embora.
Aos 27 casei e aos 30 fui feliz pela primeira vez.
Não escrevia mais poesia. Não havia mais olhar clínico para desvendar a metafísica das coisas. O que sobrou de Deus foi só sua ajuda e confidência. Nunca mais daquelas conversas subvertidas. Minha mulher não dizia mais "eu te amo".
Minha mãe morreu e eu vi que nem tudo era poesia.
E daí em diante virei poeta, músico, plástico, cineasta. Do jeito que minha mãe era: sem notar.
Aos 60 eu almejo a aposentadoria porque não aguento mais meu emprego. Mas encontro beleza na constância. Minha mulher ainda está aqui. Meus filhos não mais.
Se a intensidade é uma batalha, a constância é a guerra. A intensidade torna-se vulnerável frente ao meu corpo cansado e carcomido pelas experiências de um mundo que suprimiu minha habilidade de desenhar.
Porém não sento mais em uma cadeira como um velho estúpido, grosseiro e arrogante que diz coisas bonitas. Posso dizer as feias, mas elas são constantes.
A vida não é tudo o que a gente pensa.
mas ela pode ser feliz.
domingo, 3 de março de 2013
Heroína
Mãe, mãe, mãe... por que viagem é com gê e viajar é com jota?
Ah, meu filho, não sei.
O filho fez uma cara de tristeza porque estava naquela fase de acreditar que a mãe sabe de tudo. E a mãe estava naquela fase de olhar para o filho exacerbando tudo o que ele sente. Uma fase que só acaba quando a mãe morre. Ele precisava de uma heroína.
Ah, lembrei!
(o filho quase saltou da cadeira do ônibus)
O gê e o jota eram grandes amigos. Tão amigos, mas tão amigos, que gostavam das mesmas coisas e tinham um som parecido. Um dia alguém resolveu que a palavra Viagar seria com gê. Mas o jota adorava Viajar. Era até mais bonito. O gê, porém, não queria abrir mão da Viagem e os dois acabaram brigando. Depois da briga o gê, magoado, até passou a assumir outros sons. Viagar, agora, era errado! O jota e o gê viram que a briga era estúpida e resolveram dividir as palavras: o gê ficaria com a Viagem, e Viajar seria do jota. Os dois viagjariam. Juntos.
O filho tinha certeza que era mentira, mas fingiu que acreditou. Afinal, a mãe dele sabia de tudo.
Ah, meu filho, não sei.
O filho fez uma cara de tristeza porque estava naquela fase de acreditar que a mãe sabe de tudo. E a mãe estava naquela fase de olhar para o filho exacerbando tudo o que ele sente. Uma fase que só acaba quando a mãe morre. Ele precisava de uma heroína.
Ah, lembrei!
(o filho quase saltou da cadeira do ônibus)
O gê e o jota eram grandes amigos. Tão amigos, mas tão amigos, que gostavam das mesmas coisas e tinham um som parecido. Um dia alguém resolveu que a palavra Viagar seria com gê. Mas o jota adorava Viajar. Era até mais bonito. O gê, porém, não queria abrir mão da Viagem e os dois acabaram brigando. Depois da briga o gê, magoado, até passou a assumir outros sons. Viagar, agora, era errado! O jota e o gê viram que a briga era estúpida e resolveram dividir as palavras: o gê ficaria com a Viagem, e Viajar seria do jota. Os dois viagjariam. Juntos.
O filho tinha certeza que era mentira, mas fingiu que acreditou. Afinal, a mãe dele sabia de tudo.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Pantone
o nosso amor
é como uma velha
que tendo a casa nova
pinta as paredes por pintar
o nosso amor
muda de cor
só por mudar
pra ser maior
é da pantone
esse nosso amor
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Gênese
Antes de tudo, o escritor é vazio. Não é tabula rasa, não é bom selvagem, não, nada dessas merdas que se inventa por aí. É algo que não se pode pensar-imaginar e portanto entra no obscuro campo das coisas que não existem-significam. Pense só num ser que é vazio de tudo, um ser que não é: o artista já nasce com a contradicção em sua boca. É fanho de natureza e de propósito/destino/vontade.
A palavra nasce juntamente com o escritor, e o encontro dos dois é o que se chama por aí complementaridade (quando um excesso se acopla a um vazio) e o que não concordo. A relação homem/palavra é a fusão de dois vazios formando uma identidade concreta. Absurdamente concreta.
O vazio do homem encontra-se com o vazio da palavra e eles começam a andar juntos. É o que Pessoa fez quando descobriu que várias palavras nasceram com ele. Justamente por ser vazio, encheu-se delas, e elas, por serem vazias, encheram-se dele. Não há outro Caeiro. caeiro Caeiro.
O escritor é filósofo/scientista/astronalta espacial/filólogo. É técnico em tudo o que faz. É técnico até no erro, no juntar da letra e da palavra, na História, na mensagem. Transforma uma história em Tese.
mas antes de tudo
(com o perdão da contradição)
o escritor é poeta
e ouve luz.
A palavra nasce juntamente com o escritor, e o encontro dos dois é o que se chama por aí complementaridade (quando um excesso se acopla a um vazio) e o que não concordo. A relação homem/palavra é a fusão de dois vazios formando uma identidade concreta. Absurdamente concreta.
O vazio do homem encontra-se com o vazio da palavra e eles começam a andar juntos. É o que Pessoa fez quando descobriu que várias palavras nasceram com ele. Justamente por ser vazio, encheu-se delas, e elas, por serem vazias, encheram-se dele. Não há outro Caeiro. caeiro Caeiro.
O escritor é filósofo/scientista/astronalta espacial/filólogo. É técnico em tudo o que faz. É técnico até no erro, no juntar da letra e da palavra, na História, na mensagem. Transforma uma história em Tese.
mas antes de tudo
(com o perdão da contradição)
o escritor é poeta
e ouve luz.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Corda Bamba
E talvez seja por isso que muitas vezes não sei discorrer sobre as dores, ou não sei lidar com um sentimento necessário. Talvez seja por isso que o meu corpo não obedece o espírito, e o meu espírito luta contra o meu corpo. Talvez seja por isso que todos precisem ser salvos.
O homem e
sua propria corda bamba
se perdem
O homem e
sua propria corda bamba
se perdem
anda
a cair
de um lado
pro outro,
ainda que
em certo ponto
doa
é muito mais confortável
deitar-se no colchão
da falta de habilidade
e quando souber,
suspirar
e quando doer,
aguentar
nunca
se equilibrar
domingo, 23 de dezembro de 2012
No aeroporto
No aeroporto
Passa tudo
Menos o tempo
Morto
No céu
Não passa nada
Muito sonho junto
Mudo
No chão
Passo é tudo
Tempo e sonho
Morro e mundo
Passa tudo
Menos o tempo
Morto
No céu
Não passa nada
Muito sonho junto
Mudo
No chão
Passo é tudo
Tempo e sonho
Morro e mundo
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Fotografia #3
Quando fazemos parte da história nos permitimos a melancolia secreta, para muito além da compartilhada. É como se quiséssemos, numa empreitada fútil contra o nosso ego, vangloriarmo-nos do prazer passado. E como ser humano, gosto de admitir que o sabor disso é admirável, talvez algo quase tão gostoso quanto a memória em si. É doer, as vezes, por viver um momento menos favorecido, ou é admirar a beleza do passado como uma obra de arte em desuso, mas com valor afetivo. É quase agridoce, é algo quase doce.
Espero que tudo o que passe saia de mim para admirar mais a frente, no caminho. É uma das formas de vencer a mim mesmo. E espero que tudo o que é belo permaneça, seja no momento, seja na memória do aprendizado.
Espero que tudo o que passe saia de mim para admirar mais a frente, no caminho. É uma das formas de vencer a mim mesmo. E espero que tudo o que é belo permaneça, seja no momento, seja na memória do aprendizado.
sábado, 20 de outubro de 2012
Sinal
Tamanha é a idéia perto do corpo:
abre o olho, chega mais junto
lá, onde a gente se forma,
tudo se cria, nada se transforma
lá, é o fim do embate
onde tudo se encontra
posso te chamar do que eu quiser
vou entender tudo o que é sinal.
abre o olho, chega mais junto
lá, onde a gente se forma,
tudo se cria, nada se transforma
lá, é o fim do embate
onde tudo se encontra
posso te chamar do que eu quiser
vou entender tudo o que é sinal.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
#9
(palavra)
( palavra )
( palavra )
( p a l a v r a )
( p a l a v r a )
( p l v r )
( p l v )
( p l )
( p )
( )
( )
sentimento
( palavra )
( palavra )
( p a l a v r a )
( p a l a v r a )
( p l v r )
( p l v )
( p l )
( p )
( )
( )
sentimento
domingo, 23 de setembro de 2012
Deixa, Deus
sou a gaivota que voa lá no alto
soa barulho, chocalho
a toalha sentada no chão
sou a pegada na areia
em meio a tanta me apego
posso ser apagado
me comprometo...
prometo, prometo...
deixa eu te abraçar e deixar de saber
o que é meu e o que é seu
mexo o seu pé
seguro a minha mão
bombeio sangue pro seu coração
Deixa, Deus.
soa barulho, chocalho
a toalha sentada no chão
sou a pegada na areia
em meio a tanta me apego
posso ser apagado
me comprometo...
prometo, prometo...
deixa eu te abraçar e deixar de saber
o que é meu e o que é seu
mexo o seu pé
seguro a minha mão
bombeio sangue pro seu coração
Deixa, Deus.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Lembrete (para Rebecca)
o nosso amor é mais bonito
quando dá os passos que deve
e quando tropeça, vez em quando
é bom que se lembre que ele existe
e pra acertar os próximos passos
é bom que se lembre o cuidado
por isso, usa esse pouco que tenho
pra lembrar do que temos vivido
a fim de o que a gente tem sentido
faça sentido ao lembrar (parecer) o Amor
de quem nos deu de presente
quando dá os passos que deve
e quando tropeça, vez em quando
é bom que se lembre que ele existe
e pra acertar os próximos passos
é bom que se lembre o cuidado
por isso, usa esse pouco que tenho
pra lembrar do que temos vivido
a fim de o que a gente tem sentido
faça sentido ao lembrar (parecer) o Amor
de quem nos deu de presente
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Hugo chorou
Ele chorou quando viu Scottie vestindo sua namorada como Madeleine. Chorou quando ela morreu. Chorou quando o filme acabou, sem mais nem menos. Na verdade, chorou quando ligou a tevê. Hitchcock era mais drama que qualquer outra coisa, pra ele. Lembrou de quando tentou vestir Luisa como quis. Lembrou dos traços que a deu: com o simples olhar diminuiu seu nariz, afinou o quadril. Vestiu-a com um vestido longo em forma de presente. Amou-a como a nunca outra qualquer, pois era sua criação. Talvez seja por isso que Deus, na sua magnitude, nos ama tanto: somos molde dele. Luisa não, não era molde de Deus, não mais. Era molde de Hugo. E ao finalizar a sua obra, ele chorou. Chorava agora por não ter mais a quem vestir, como o detetive do filme.
Hugo era sensível, tamanha a sua brutalidade. Como se um gigante carregasse uma margarida em seu paletó. Ele não chorava sempre porque estava triste, mas sempre ficava triste quando chorava. Triste porque não havia jeito, era doente: desde menino não conseguia piscar os olhos, e a luz lhe irritava mesmo por trás dos oculos escuros. Chorava discretamente o dia todo, e isso lhe agravava o temperamento forte. Só Luisa o aguentava, fruto de suas carências ou de um amor que só poderia ser presente divino. Para ela, a aparência não existia, para ele, era o mais importante.
Hugo ainda chorava, na cozinha, ao cortar as cebolas. Hugo ainda chorava ao tomar banho.
Luisa, desde nascida, era cega. Mas não era culpa de quem a fez, a culpa era de Deus. Não sabia e nunca soube apreciar o trabalho magnífico de Hitchcock. Encontrou Hugo numa biblioteca e de pronto, apaixonou-se. Frequentava as bibliotecas e livrarias porque adorava os livros. Comprava-os pela textura da capa, sentia através do dedo cada página. Entrelaçava-se com as histórias que os poros do papel contavam. Sentia a tinta. Havia lido Moby Dick, Dom Casmurro, Huckleberry Finn... seu preferido era um de Garcia Márquez. "A capa mais sedosa que já senti na vida". Apaixonou-se por Hugo porque era Garcia Márquez legítimo: Sua textura era diferente ao passo das lágrimas que caíam e molhavam suas bochechas e sua barba cheia.
Um dia Luisa abriu os olhos, como toda a manhã fazia. Só que dessa vez avistou Hugo. Avistou o quadril que não era dela, seu nariz diminuido. Olhou o vestido que não lhe pertencia. Luisa chorou porque a luz a irritava tanto quanto a deixava triste. Os livros perderam todo o significado. As texturas foram sumindo do rosto de hugo. Tudo que era palavra se desfez, em poucos segundos. E Hugo nunca mais a viu.
Hugo chorou.
Hugo era sensível, tamanha a sua brutalidade. Como se um gigante carregasse uma margarida em seu paletó. Ele não chorava sempre porque estava triste, mas sempre ficava triste quando chorava. Triste porque não havia jeito, era doente: desde menino não conseguia piscar os olhos, e a luz lhe irritava mesmo por trás dos oculos escuros. Chorava discretamente o dia todo, e isso lhe agravava o temperamento forte. Só Luisa o aguentava, fruto de suas carências ou de um amor que só poderia ser presente divino. Para ela, a aparência não existia, para ele, era o mais importante.
Hugo ainda chorava, na cozinha, ao cortar as cebolas. Hugo ainda chorava ao tomar banho.
Luisa, desde nascida, era cega. Mas não era culpa de quem a fez, a culpa era de Deus. Não sabia e nunca soube apreciar o trabalho magnífico de Hitchcock. Encontrou Hugo numa biblioteca e de pronto, apaixonou-se. Frequentava as bibliotecas e livrarias porque adorava os livros. Comprava-os pela textura da capa, sentia através do dedo cada página. Entrelaçava-se com as histórias que os poros do papel contavam. Sentia a tinta. Havia lido Moby Dick, Dom Casmurro, Huckleberry Finn... seu preferido era um de Garcia Márquez. "A capa mais sedosa que já senti na vida". Apaixonou-se por Hugo porque era Garcia Márquez legítimo: Sua textura era diferente ao passo das lágrimas que caíam e molhavam suas bochechas e sua barba cheia.
Um dia Luisa abriu os olhos, como toda a manhã fazia. Só que dessa vez avistou Hugo. Avistou o quadril que não era dela, seu nariz diminuido. Olhou o vestido que não lhe pertencia. Luisa chorou porque a luz a irritava tanto quanto a deixava triste. Os livros perderam todo o significado. As texturas foram sumindo do rosto de hugo. Tudo que era palavra se desfez, em poucos segundos. E Hugo nunca mais a viu.
Hugo chorou.
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