(Fabiana joga a urna, com as cinzas da avó de Cláudio, da janela do décimo quinto andar do prédio.)
Cláudio:
Por que fizeste tal coisa?
Estás a delirar? Já deveria saber:
Me casei com uma louca varrida!
Completamente possessiva!
Concedi o meu domingo,
minha missa, meu futebol,
minha motocicleta, meu anzol,
minhas palavras, minhas cervejas,
minhas amigas, minhas certezas,
muito mais que meu tudo te dei!
Pra saber que me enganei!
Agora me privas do que restou de minha vó,
aquela santa, tão diferente de vossa mãe!
Jogou-a do décimo quinto andar...
Pra o que restou dela, não mais restar.
(Ouve-se um grito distante, e os dois parecem não se importar com aquilo, e continuam a discutir. Fabiana rasga a capa de um vinil do Elvis Presley, e lança o disco de encontro à parede, que se quebra em mil pedaços)
Fabiana:
Santa? Santarrona!
Maldita pecadora
era a vossa progenitora!
(Fabiana pega o disco "Abbey Road", dos Beatles. Num rápido movimento, Cláudio corre para se entrincheirar atrás do sofá novo.)
A tua família foi concebida
na prostituição! E você?
Te encontrei a vadiar pelo Grajaú!
(Nesse momento, Cláudio deixa a cabeça aparecer atrás do sofá, com a expressão raivosa)
Cláudio:
Vá tomar no...
(O barulho do vinil dos Beatles espatifando um vaso de porcelana abafou a última palavra dita por Cláudio. Nesse momento, Fabiana corre até a cozinha e pega um Pudim de Chocolate, e com a fôrma em punho, volta para a sala.)
Fabiana:
Olha cá, o pudim que te fiz!
Há duas semanas está na geladeira...
Não gostas de comer besteira?
Então, tome-as!
(Fabiana pega punhados de pudim e os lança aleatoriamente. Agora Cláudio está realmente bravo, e de sopetão vira o sofá de ponta a cabeça. Sua cara está vermelha. Ouve-se um som de sirene ao fundo.)
Cláudio:
Não te bato pois fui educado!
És uma mulher insolente!
Vadio é quem diz, pois você não trabalha,
fica em casa o dia todo,
vai a academia, malha,
volta pra casa e se deita no chão.
E não pense que não sei do Ricardão!
Pois aquelas gravatas que surgiram
no armário, não eram minhas!
Enquanto eu estou a trabalhar,
onde já se viu?
Ausento-me para te sustentar,
e tens a ingratidão de me trocar?
Desgraçada tu és,
Fez do meu amor castelo de areia,
na beira do mar.
Já se foram dez anos,
e só nos cinco primeiros
te pude aguentar!
Fabiana:
Te traí por que assim também o fizeste!
Achei que estava subentendido...
Tácito, implícito!
As várias que tens nas ruas,
conheço-as por nome e cor,
qualidade de cabelos e estilo,
e por muitos outros mais eu sei
das tais do teu harém.
(Na rua, uma senhorinha estava morta, com paramédicos a colocá-la na ambulância, e como a viatura obstruiu uma passagem, um motorista descuidado e alcoolizado bateu em outro carro. Fabiana e Cláudio ouvem o estrondo da batida e correm juntos até a janela, avistando a senhorinha, coberta com as cinzas da avó de Cláudio, e os paramédicos desnorteados.)
Assim terminou a batalha:
Cada um foi pro seu canto
Sem ter o que falar
Diminuiu-se à um diminuto pranto,
simultâneo.
Cláudio dormiu no sofá.
sábado, 1 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
À Deriva
Folha qualquer eu vou carregar na beira:
O inverno já vai chegar...
Como a onda que vem pra me arrastar, profundo
na iminência...
Como formiga no mar, sem poder afundar e sem saber nadar
À deriva até o finar.
E os tentáculos do céu, acinzentados de medo
Ameaçam desabar.
A chuva que cai só faz me empurrar, ajuda
A nuvem me diz:
Se vá, pra nunca mais voltar.
O inverno já vai chegar...
Como a onda que vem pra me arrastar, profundo
na iminência...
Como formiga no mar, sem poder afundar e sem saber nadar
À deriva até o finar.
E os tentáculos do céu, acinzentados de medo
Ameaçam desabar.
A chuva que cai só faz me empurrar, ajuda
A nuvem me diz:
Se vá, pra nunca mais voltar.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Prosa prosaica
Me diz
antonio
Se a vida é o que basta...
Se existir é o que nos resta!
Não és tu
antonio
Grande conhecedor do tudo
que fala do nada
e fala de
antonio?
Ou cá, ou lá.
Porque não posso escolher
os dois, à pá?
Diz pra mim
antonio
antonio
Se a vida é o que basta...
Se existir é o que nos resta!
Não és tu
antonio
Grande conhecedor do tudo
que fala do nada
e fala de
antonio?
Ou cá, ou lá.
Porque não posso escolher
os dois, à pá?
Diz pra mim
antonio
domingo, 25 de abril de 2010
Depressão
(...)
Faz do músculo, coração.
(...)
Faz das palmas, mão.
(...)
Faz das almas, oração.
Não
Não.
Não!
(...)
(...)
Faz da mente, escuridão.
Sem fim
Sim!
Sim.
Sim
(...)
Faz do assado, assim.
Faz do músculo, coração.
(...)
Faz das palmas, mão.
(...)
Faz das almas, oração.
Não
Não.
Não!
(...)
(...)
Faz da mente, escuridão.
Sem fim
Sim!
Sim.
Sim
(...)
Faz do assado, assim.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Casa muito engraçada
Era uma casa muito engraçada.
Tinha tetos,
tinha chão,
penico e sacada,
mas além das paredes
e da beleza ostentada,
possuia uma família
plenamente desestruturada.
Tinha tetos,
tinha chão,
penico e sacada,
mas além das paredes
e da beleza ostentada,
possuia uma família
plenamente desestruturada.
terça-feira, 20 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Resolução
- Dos sonhos todos, amigo, tomei um.
Um apenas, nada mais.
Nem demais.
- Mas ele não se realizou.
- Que farei eu, pois?
Tomarei outro sonho pra mim,
ou deixo tudo como está?
- Diga-me você,
já que não cabe a mim sonhar.
- Há o medo de falhar...
- Mas há vontade de tentar.
- É, isso há.
- Então sonhe em não sonhar.
Um apenas, nada mais.
Nem demais.
- Mas ele não se realizou.
- Que farei eu, pois?
Tomarei outro sonho pra mim,
ou deixo tudo como está?
- Diga-me você,
já que não cabe a mim sonhar.
- Há o medo de falhar...
- Mas há vontade de tentar.
- É, isso há.
- Então sonhe em não sonhar.
domingo, 18 de abril de 2010
Aos tolos apaixonados
Vós sois motivo
da minha ironia.
(risos)
Dão conta de ser
aquilo que não seriam
caso estivessem
chagados, pelo costume
ou a solidão.
Engraçado é,
a falta de parcimônia,
as palavras, ditas sem consciência...
E quando ditas, de olhos apertados,
tangem a clínica demência.
Ah, dá-me um antídoto, por favor!
da minha ironia.
(risos)
Dão conta de ser
aquilo que não seriam
caso estivessem
chagados, pelo costume
ou a solidão.
Engraçado é,
a falta de parcimônia,
as palavras, ditas sem consciência...
E quando ditas, de olhos apertados,
tangem a clínica demência.
Ah, dá-me um antídoto, por favor!
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Mais um
se entregou ao amor mais um
mais um se descuidou
consentiu a queda vã
e não mais se importa
não se preocupa em se preocupar
seus versos descuidaram-se
seus cantos desafinaram-se
e seus olhos foram cobertos
agora ele anda nas ruas à toa
na rua qual o nome mais lhe agrada
com um sorriso tolo e ao mesmo tempo
dono do mundo
até morrer o que se tem
tudo está tão bem
se entregou ao amor mais um
mais um se descuidou
consentiu a queda vã
e não mais se importa
não se preocupa em se preocupar
seus versos descuidaram-se
seus cantos desafinaram-se
e seus olhos foram cobertos
agora ele anda nas ruas à toa
na rua qual o nome mais lhe agrada
com um sorriso tolo e ao mesmo tempo
dono do mundo
até morrer o que se tem
tudo está tão bem
se entregou ao amor mais um
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Pé de ipê
Ipê:
É pé de quê?
É pé de não sei,
não dá pé pra saber...
Amarelo que só,
ri profundo esplendor
ouro que só cor é,
mas vale amor
e compra sorrir.
Ipê:
É pé de que?
É pé de não sei,
não careço saber...
Pois o apreço que dá,
o aperto que é nó,
faz da vida esquecer
e desabrocha em querer
ver, ipê.
É pé de quê?
É pé de não sei,
não dá pé pra saber...
Amarelo que só,
ri profundo esplendor
ouro que só cor é,
mas vale amor
e compra sorrir.
Ipê:
É pé de que?
É pé de não sei,
não careço saber...
Pois o apreço que dá,
o aperto que é nó,
faz da vida esquecer
e desabrocha em querer
ver, ipê.
Esmero
Faço o que quero.
O que quero, não gosto.
Se fizesse o que gosto,
não faria o que quero,
e se não faço o que quero,
não faço com esmero.
O que quero, não gosto.
Se fizesse o que gosto,
não faria o que quero,
e se não faço o que quero,
não faço com esmero.
domingo, 11 de abril de 2010
Conservadorismo Poético
Diga quantos tempos me faltavam,
para que ao certo me programe,
e então evite o mal infame,
maculando os que me inspiravam.
Em dez tantos juro ser preciso!
Privar-me-ei da modernidade,
usarei canto de castidade...
Lembrarei de tudo que é inciso.
Cá escrevo para a mocidade;
Claro, para o bem do legalismo,
E para a defesa da verdade.
Para que se veja novo dia!
Que brilhe nosso patriotismo,
E a tradição da poesia.
para que ao certo me programe,
e então evite o mal infame,
maculando os que me inspiravam.
Em dez tantos juro ser preciso!
Privar-me-ei da modernidade,
usarei canto de castidade...
Lembrarei de tudo que é inciso.
Cá escrevo para a mocidade;
Claro, para o bem do legalismo,
E para a defesa da verdade.
Para que se veja novo dia!
Que brilhe nosso patriotismo,
E a tradição da poesia.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Versos desconexos
prefere-se ser
pois o não-ser
é inevitável.
olhando para
essências, vemos
inexistências
é vendo
que se vende
o que se vendava
Gato
Rato
Cão.
pois o não-ser
é inevitável.
olhando para
essências, vemos
inexistências
é vendo
que se vende
o que se vendava
Gato
Rato
Cão.
domingo, 4 de abril de 2010
Foto e Grafia.
Uma foto deixou-me...
Atrás desta uma grafia.
Deixou-me sem ao menos
Pertencer-me.
Mas a tive nas mãos,
A foto, sim!
Lembro-me do tom claro-carmim
De uma paisagem que nunca vi.
Morros e sorrisos,
Num tom de sol menor,
Triste, porém fingindo.
Uma foto você me deixou.
Me deixou, sem ao menos
Pertencer-me.
Atrás desta uma grafia.
Deixou-me sem ao menos
Pertencer-me.
Mas a tive nas mãos,
A foto, sim!
Lembro-me do tom claro-carmim
De uma paisagem que nunca vi.
Morros e sorrisos,
Num tom de sol menor,
Triste, porém fingindo.
Uma foto você me deixou.
Me deixou, sem ao menos
Pertencer-me.
Ao início.
De volta ao início de tudo,
Quando encontrei-me aqui.
Mas, tudo já não parece como no início...
Talvez não tenha rompido o espaço-tempo,
Pois leves discrepâncias encontrei.
O que era de cor, descorou
O que era de flor, desflorou
E tudo mais que era, deserou...
Mas mesmo assim, estou
De volta ao início de tudo.
Quando encontrei-me aqui.
Mas, tudo já não parece como no início...
Talvez não tenha rompido o espaço-tempo,
Pois leves discrepâncias encontrei.
O que era de cor, descorou
O que era de flor, desflorou
E tudo mais que era, deserou...
Mas mesmo assim, estou
De volta ao início de tudo.
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