Eu ainda tô aqui:
mordendo caneta, falando besteira
e contentando o engano
com arco-íris de mangueira.
Não mudei
(só um pouquinho)
E você, que viajou por aí,
viu tanta coisa chover
viu tanta água subir
onde e quem você tá?
Eu? Eu ainda tô aqui.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Descoberta
Cada dia é uma nova!
Descobri as descobertas!
Quando descobrimos o coberto,
vemos que este era
justamente
outro cobertor.
Cada dia é uma nova!
Descobri as descobertas!
Quando descobrimos o coberto,
vemos que este era
justamente
outro cobertor.
Cada dia é uma nova!
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Jorge e as mudanças imperceptíveis
Abrem-se as cortinas. Sim, isto faz parte daquele meu irremediável costume de começar histórias com períodos extremamente curtos e sem sentido aparente. Acho belo - aí vai outro período curto. E talvez eu goste disso porque creio que as nossas transições são feitas num período curto. Há quem diga que "não se torna isso do dia pra noite, não se faz aquilo instantâneamente", por causa disso, ou daquilo, ou daquilo outro - que é referencial dogmático. Pois eu digo que não: Todas as mudanças são feitas num período extremamente curto. Esse período se revela tão curto, que acaba por se disfarçar na corrente de mudanças, nos dando a impressão de que nada se faz do dia pra noite. Mas na verdade deixamos o passado para trás e ignoramos as consequências disto com a mesma facilidade que nos recusamos a mudar, por medo desses mesmos reflexos. Percebemos esse período curto quando moramos numa cidade voltada para o mar. Jorge mora numa cidade voltada para o mar. E como se não bastasse, se permite viver na avenida beira-mar.
Onde começa o mar? Onde termina a cidade?
Pois o mar está revolto em nossos eletro-eletrônicos. Trocamos de tevês e computadores e microondas muito rapidamente. A maresia invade a cidade, o mar invade o vazado dos prédios, enferrujando e deteriorando os nossos metais.
Abrem-se as cortinas e Jorge olha a avenida. Sinais, faixas, pessoas no calçadão, automóveis. Para ele explicar isso era fácil, pelo menos era o que pensava, ou não pensava, enquanto segurava a caneca de café que exalava uma fumaça fraca. "Ali começa o mar, na areia, horas mais em cima, horas mais embaixo, a maré dita seu começo como um general dita o posicionamento de suas tropas." Mas ele na verdade não podia explicar. Para ele, as mudanças da maré se exibiam na sua lentidão. Ele dizia que sim, e eu já me nego a compactuar com Jorge: Essas mudanças são feitas num período curto. Num milésimo de segundo, no exato momento, a maré tinha ficado imperceptivelmente mais alta. Mas quem poderá dizer que não está mais alta? Quem poderá dizer que não existe Deus? Creio eu que Ele tenha iluminado Jorge no momento exato. Tentou abrir a janela de metal, não conseguiu. Ali estava o mar, tinha se infiltrado em sua casa, no enferrujado de sua janela e em todos os seus eletro-eletrônicos. Ele percebeu que pisava no molhado metafísico do mar. Jorge sentiu-se alegre, a água estava fria, subiu-lhe um calafrio, um nervoso na espinha dorsal. Precisava sair. O carro dele não pegava. Talvez fosse o frio incomum que fazia naqueles dias, talvez não, nunca entendi muito bem os automóveis. Ele precisava de um carro novo. Sua vida também não pegava, precisava de uma nova, mas infelizmente, vida só se pode ter uma.
Jorge andava abstraido pelo calçadão da praia. Estava mergulhado no mar que descobrira há pouco. Encontrou um parque, com as barras do portão enferrujadas. Estava ali, era o sinal do mar, de que ele existia ali. Deitou-se na gangorra. Não via o céu direito, os prédios lhe davam esta visão defasada, irreal, parcial, do céu nublado que reinava. Era a cidade. E a cidade Jorge? Com o que lhe parece a cidade? A visão íntima dele era que o mar não se encaixava na cidade. Nunca havia percebido que morava à beira-mar. Não percebido óticamente, mas percebido com a alma, com a idéia, a razão. Para ele, cidade e mar não poderiam coexistir em paz: Ou o mar destruía a cidade, ou a cidade ao mar. Nunca havia percebido que o mar era o que havia erigido o seu prédio. Embora vivesse rodeado de construções - as constantes mudanças! - só atentava para a estaticidade do seu edifício. A cidade é como o mar, Jorge. É como a maré. Não se pode dizer onde começa, onde termina. A cidade envolve os seus tentáculos onde quiser. Mas, e no mar? Lá está a plataforma de petróleo e os navios cargueiros. Quem poderá dizer que a cidade não existe lá? Jorge olhava a plataforma. Era um prédio como os outros. Os prédios em construção - constantes mudanças! - o cinema desativado, os bares, o metrô, a cidade mudava numa rapidez novamente imperceptível. Era o curto período da hora útil, que fazia a cidade pender para um lado, a maré descer, e a hora inútil subia o mar que a plataforma enferrujava. Jorge sorriu, pisava agora no concreto. Mas era um concreto abstrato. Quem dera todos os dias as cortinas abrissem como hoje se abriram.
Onde começa o mar? Onde termina a cidade?
Pois o mar está revolto em nossos eletro-eletrônicos. Trocamos de tevês e computadores e microondas muito rapidamente. A maresia invade a cidade, o mar invade o vazado dos prédios, enferrujando e deteriorando os nossos metais.
Abrem-se as cortinas e Jorge olha a avenida. Sinais, faixas, pessoas no calçadão, automóveis. Para ele explicar isso era fácil, pelo menos era o que pensava, ou não pensava, enquanto segurava a caneca de café que exalava uma fumaça fraca. "Ali começa o mar, na areia, horas mais em cima, horas mais embaixo, a maré dita seu começo como um general dita o posicionamento de suas tropas." Mas ele na verdade não podia explicar. Para ele, as mudanças da maré se exibiam na sua lentidão. Ele dizia que sim, e eu já me nego a compactuar com Jorge: Essas mudanças são feitas num período curto. Num milésimo de segundo, no exato momento, a maré tinha ficado imperceptivelmente mais alta. Mas quem poderá dizer que não está mais alta? Quem poderá dizer que não existe Deus? Creio eu que Ele tenha iluminado Jorge no momento exato. Tentou abrir a janela de metal, não conseguiu. Ali estava o mar, tinha se infiltrado em sua casa, no enferrujado de sua janela e em todos os seus eletro-eletrônicos. Ele percebeu que pisava no molhado metafísico do mar. Jorge sentiu-se alegre, a água estava fria, subiu-lhe um calafrio, um nervoso na espinha dorsal. Precisava sair. O carro dele não pegava. Talvez fosse o frio incomum que fazia naqueles dias, talvez não, nunca entendi muito bem os automóveis. Ele precisava de um carro novo. Sua vida também não pegava, precisava de uma nova, mas infelizmente, vida só se pode ter uma.
Jorge andava abstraido pelo calçadão da praia. Estava mergulhado no mar que descobrira há pouco. Encontrou um parque, com as barras do portão enferrujadas. Estava ali, era o sinal do mar, de que ele existia ali. Deitou-se na gangorra. Não via o céu direito, os prédios lhe davam esta visão defasada, irreal, parcial, do céu nublado que reinava. Era a cidade. E a cidade Jorge? Com o que lhe parece a cidade? A visão íntima dele era que o mar não se encaixava na cidade. Nunca havia percebido que morava à beira-mar. Não percebido óticamente, mas percebido com a alma, com a idéia, a razão. Para ele, cidade e mar não poderiam coexistir em paz: Ou o mar destruía a cidade, ou a cidade ao mar. Nunca havia percebido que o mar era o que havia erigido o seu prédio. Embora vivesse rodeado de construções - as constantes mudanças! - só atentava para a estaticidade do seu edifício. A cidade é como o mar, Jorge. É como a maré. Não se pode dizer onde começa, onde termina. A cidade envolve os seus tentáculos onde quiser. Mas, e no mar? Lá está a plataforma de petróleo e os navios cargueiros. Quem poderá dizer que a cidade não existe lá? Jorge olhava a plataforma. Era um prédio como os outros. Os prédios em construção - constantes mudanças! - o cinema desativado, os bares, o metrô, a cidade mudava numa rapidez novamente imperceptível. Era o curto período da hora útil, que fazia a cidade pender para um lado, a maré descer, e a hora inútil subia o mar que a plataforma enferrujava. Jorge sorriu, pisava agora no concreto. Mas era um concreto abstrato. Quem dera todos os dias as cortinas abrissem como hoje se abriram.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Culinária
enquanto está na manteiga a cebola,
frito a calabresa,
espero pacientemente na mesa.
(...)
porque como é que cozinho,
porque me esqueço é que como,
do problema da vida
e do problema do estômago.
frito a calabresa,
espero pacientemente na mesa.
(...)
porque como é que cozinho,
porque me esqueço é que como,
do problema da vida
e do problema do estômago.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Oração
Não me deixes ver a ti.
Continue a se esconder atrás
do verde em nós
no ver de mar.
Que minhas palavras não possam ser
simples orações dispostas
à mercê da gravidade,
mas que seja a oração
direcionada ao céu,
uma conversa que ultrapasse
a malha de cumulus nimbus.
Não afaste de mim os cálices,
que eu os beba, se assim quiseres.
Dê os que eu mereço,
Deus,
que preciso
pra aprender,
crescer
e ir te encontrar,
escondido...
Continue a se esconder atrás
do verde em nós
no ver de mar.
Que minhas palavras não possam ser
simples orações dispostas
à mercê da gravidade,
mas que seja a oração
direcionada ao céu,
uma conversa que ultrapasse
a malha de cumulus nimbus.
Não afaste de mim os cálices,
que eu os beba, se assim quiseres.
Dê os que eu mereço,
Deus,
que preciso
pra aprender,
crescer
e ir te encontrar,
escondido...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
São Francisco
E os passos, engendrados pela mente
dão vida ao solitário apartamento
que dá as costas pro mar
pra ser mais barato.
dão vida ao solitário apartamento
que dá as costas pro mar
pra ser mais barato.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Texto com fins de escândalo mal sucedido (com todas as interpretações possíveis para a ambiguidade)
Pois é. Resolvi escrever e causar um escândalo. Um grito. Ah! Eu ouço, vocês não ouvem, pois não há ouvidos em olhos, muito menos boca em palavras. Gostaria de escandalizar tanto quanto me escandalizaram. Acho que isso não me é permitido. Talvez a vontade me traga a duas extremas possibilidades: A de escandalizar muito mais, por achar que meu problema é o maior de todos, e dosar de forma incorreta a minha vingança, esquartejando alguém; Ou posso suavizá-la, não por querer, mas por ímpeto automático da piedade inerente ao meu ser, talvez me arrepender depois, tentar fazer de novo e... enfim, voltamos ao esquartejamento. A vingança é fora de cogitação, porque de forma alguma é justa. Só seria justa se fôssemos ideais. Quando se pisa num pé por vingança, pisa-se muito mais forte. E se não piso, não machuco, e vá lá, ninguém quer levar desaforo pra casa.
Muito bem, resolvi escrever um texto. Que maravilha, uma descarga mental, um qualquer-coisa degenerado que só exibe aos poucos transeuntes a minha falta de resolução comigo mesmo. Quer saber? Que se dane. O texto já está escrito mesmo, não tem como apagar, até porque ele não está lá tão ruim. Mas aí me resta uma dúvida: Será que alguém vai ler? E entender? (Quanta pergunta retórica...) Não faz sentido nenhum se ninguém entender, logo, o texto estaria uma grande merda. Mas não está.
Fotos, eu olhei hoje dezenas e dezenas de fotos. Me deu vontade de me vingar. Mas não dá, porque eu estaria sendo alguém ruim. Quanto maniqueísmo, hein? Olhar pra quem te escandalizou e achar que essa pessoa é ruim. Ruim? Essa palavra beira o ridículo. Um desvairado juízo de valor, que aplicado a seres humanos é inútil. Há certas coisas que eu entendo mas me nego a aceitar. A negação é culpa minha. Já devia ter me acertado.
Como irei me acertar? Sem me vingar? Há de haver um jeito! Causar dor no outro, ou puramente satisfação ao meu ser! Existe algo me rasgando por dentro, que tal? Já tentei de tudo. Nada resolve. Comecei a achar que é patológico. Que se explodam as patologias, eu só quero ficar bem! Bem comigo mesmo! Em paz! PAZ!
Paz que alguém me deu, e depois me tirou. Sem nem perceber, sem motivo. Porque se houvesse um motivo, talvez se tornasse no mínimo plausível.
Mas há um jeito de voltar-me à paz. Morrendo. Por isso me matei. Hoje, dia 02 de maio de 1996, com uma dose de qualquer coisa. Engasguei, agonizei, e fui. Espero que nos traga paz.
Um homem foi encontrado com a seguinte carta, em casa de seus pais, trancado no quarto. A televisão estava ligada, sem sinal, e ele estava jogado ao chão, ainda vivo. Foi reanimado, e continua morto, vivendo até o presente dia.
(texto fictício)
Muito bem, resolvi escrever um texto. Que maravilha, uma descarga mental, um qualquer-coisa degenerado que só exibe aos poucos transeuntes a minha falta de resolução comigo mesmo. Quer saber? Que se dane. O texto já está escrito mesmo, não tem como apagar, até porque ele não está lá tão ruim. Mas aí me resta uma dúvida: Será que alguém vai ler? E entender? (Quanta pergunta retórica...) Não faz sentido nenhum se ninguém entender, logo, o texto estaria uma grande merda. Mas não está.
Fotos, eu olhei hoje dezenas e dezenas de fotos. Me deu vontade de me vingar. Mas não dá, porque eu estaria sendo alguém ruim. Quanto maniqueísmo, hein? Olhar pra quem te escandalizou e achar que essa pessoa é ruim. Ruim? Essa palavra beira o ridículo. Um desvairado juízo de valor, que aplicado a seres humanos é inútil. Há certas coisas que eu entendo mas me nego a aceitar. A negação é culpa minha. Já devia ter me acertado.
Como irei me acertar? Sem me vingar? Há de haver um jeito! Causar dor no outro, ou puramente satisfação ao meu ser! Existe algo me rasgando por dentro, que tal? Já tentei de tudo. Nada resolve. Comecei a achar que é patológico. Que se explodam as patologias, eu só quero ficar bem! Bem comigo mesmo! Em paz! PAZ!
Paz que alguém me deu, e depois me tirou. Sem nem perceber, sem motivo. Porque se houvesse um motivo, talvez se tornasse no mínimo plausível.
Mas há um jeito de voltar-me à paz. Morrendo. Por isso me matei. Hoje, dia 02 de maio de 1996, com uma dose de qualquer coisa. Engasguei, agonizei, e fui. Espero que nos traga paz.
Um homem foi encontrado com a seguinte carta, em casa de seus pais, trancado no quarto. A televisão estava ligada, sem sinal, e ele estava jogado ao chão, ainda vivo. Foi reanimado, e continua morto, vivendo até o presente dia.
(texto fictício)
sábado, 31 de julho de 2010
Cotidiano
Enquanto isso, na varanda
exposto está o cotidiano extraordinário
aquele que nos adoça numa surpresa normal
o cotidiano infalível.
exposto está o cotidiano extraordinário
aquele que nos adoça numa surpresa normal
o cotidiano infalível.
sábado, 17 de julho de 2010
O Banco Alto
De todas as coisas no mundo que me dão pano pra manga, a maior de todas elas, indubitávelmente é um ônibus. Porque no ônibus eu tenho os meus insaites, tenho as minhas idéias. A Pendotiba, empresa que monopoliza o transporte público aqui de Niterói, já partilhou das minhas maiores alegrias, das minhas menores tristezas, dos meus pensamentos, das minhas decisões. Não sei o que seria se andasse de táxi. Não seria o mesmo. Tive idéias, tive falta delas, li, amei, cuspi, ri, chorei, tudo dentro de um ônibus. Mas tudo isso não é nada, diante da tamanha importância que os ônibus têm em minha vida.
Foi hoje que eu vi, e me lembrei. Pegava o ônibus para a escola, para ir me preocupar com notas e recuperações, quando entraram porta adentro uma mãe, e seu filho, de uns 8 anos, e ela o carregava por obrigação. Não era daquelas crianças que anda subordinadamente ao lado da mãe: ele deveria ser literalmente puxado. Eu estava sentado no assento mais alto, aquele assento que é elevado por causa das rodas do ônibus. Havia entrado no ônibus e me dirigido diretamente a esse assento. E a criança, arrastada, soltou um grito no meio do ônibus:
- Ali mãe! Ali! No banco alto! EU QUERO SENTAR NO BANCO ALTO!
Voltemos aos dias de minha infância:
- Ali mãe! Ali! No banco alto! EU QUERO SENTAR NO BANCO ALTO!
Sim, eu também queria, e ainda quero, todas as vezes que entro no ônibus, sentar no banco alto. Mas por que?
POR QUE PREFERIMOS O BANCO ALTO?!?
Nunca entendi. E em meio a tantos risos, choros, amores, ódios, cuspes, escarros, leituras e devaneios eu sempre me perguntei isso. E é o banco alto, e de preferência o da janela, que dá pra encostar a cabeça e sentir os respingos e o vento. São 18 anos de dúvida. Talvez seja uma questão de vida inteira, uma monografia de mestrado - que defenderei com unhas e dentes. Isso tudo me atacou hoje e me levou até o Gúgôl. "Por que preferimos sentar no banco alto do ônibus?" foi o que eu perguntei ao Dr. Sabe tudo, e do alto da sua sabedoria ele me mostrou que eu não estava só. Comentários e mais comentários, reais e ficcionais, a respeito da preferência pelo tão aclamado assento. Muitos comentários, muitos relatos, mas nenhuma resposta. Isso é caso de pesquisa antropológica, não brinco aqui caros leitores. Talvez seja pelo desejo humano de destaque, ou pelo mesmo instinto natural de estar numa posição privilegiada, que te permite avistar melhor o ambiente que te cerca, cheio de riscos e ameaças. Eu sento por nostalgia. Por falta do que fazer, gosto de coisas que me lembrem dos meus 5 anos. Mas não é só por isso, a vontade arde, quando vejo o banco vago, a janela vaga, sem ninguém do lado! Tomo o assento e me acalmo. Mas se não há mais lugares nesses mirantes do transporte público, fico um tanto desapontado. Dá até vontade de falar:
- Ali, no banco alto. Queria sentar no banco alto.
Estarei fora pelas próximas duas semanas. Sei que não farei falta, mas é só pra avisar mesmo.
Foi hoje que eu vi, e me lembrei. Pegava o ônibus para a escola, para ir me preocupar com notas e recuperações, quando entraram porta adentro uma mãe, e seu filho, de uns 8 anos, e ela o carregava por obrigação. Não era daquelas crianças que anda subordinadamente ao lado da mãe: ele deveria ser literalmente puxado. Eu estava sentado no assento mais alto, aquele assento que é elevado por causa das rodas do ônibus. Havia entrado no ônibus e me dirigido diretamente a esse assento. E a criança, arrastada, soltou um grito no meio do ônibus:
- Ali mãe! Ali! No banco alto! EU QUERO SENTAR NO BANCO ALTO!
Voltemos aos dias de minha infância:
- Ali mãe! Ali! No banco alto! EU QUERO SENTAR NO BANCO ALTO!
Sim, eu também queria, e ainda quero, todas as vezes que entro no ônibus, sentar no banco alto. Mas por que?
POR QUE PREFERIMOS O BANCO ALTO?!?
Nunca entendi. E em meio a tantos risos, choros, amores, ódios, cuspes, escarros, leituras e devaneios eu sempre me perguntei isso. E é o banco alto, e de preferência o da janela, que dá pra encostar a cabeça e sentir os respingos e o vento. São 18 anos de dúvida. Talvez seja uma questão de vida inteira, uma monografia de mestrado - que defenderei com unhas e dentes. Isso tudo me atacou hoje e me levou até o Gúgôl. "Por que preferimos sentar no banco alto do ônibus?" foi o que eu perguntei ao Dr. Sabe tudo, e do alto da sua sabedoria ele me mostrou que eu não estava só. Comentários e mais comentários, reais e ficcionais, a respeito da preferência pelo tão aclamado assento. Muitos comentários, muitos relatos, mas nenhuma resposta. Isso é caso de pesquisa antropológica, não brinco aqui caros leitores. Talvez seja pelo desejo humano de destaque, ou pelo mesmo instinto natural de estar numa posição privilegiada, que te permite avistar melhor o ambiente que te cerca, cheio de riscos e ameaças. Eu sento por nostalgia. Por falta do que fazer, gosto de coisas que me lembrem dos meus 5 anos. Mas não é só por isso, a vontade arde, quando vejo o banco vago, a janela vaga, sem ninguém do lado! Tomo o assento e me acalmo. Mas se não há mais lugares nesses mirantes do transporte público, fico um tanto desapontado. Dá até vontade de falar:
- Ali, no banco alto. Queria sentar no banco alto.
Estarei fora pelas próximas duas semanas. Sei que não farei falta, mas é só pra avisar mesmo.
terça-feira, 13 de julho de 2010
A jóia
Franco tomou sua xícara de café e olhou no além-mesa, parada numa dessas canecas que todos nós invejamos pela suavidade e sutileza de suas cores, uma mão que ostentava um anel singular. Não era um desses genéricos, com diamantes dispostos a esmo, sem pensar no futuro ou no passado. Era uma jóia meticulosamente forjada: Um enlace de ouro comum e branco, com uma sincronia inigualável. Causava a impressão de que a separação entre os metais nunca existira, que eles sempre estiveram assim dispostos, encaixados. De certo havia vezes em que se olhava para o anel, e não se podia perceber que eram dois tipos de ouro, mesmo que a cor fizesse esse detalhe aparente. Dois pequenos diamantes estavam encravados na parte superior, um em cada pólo do anel. A jóia era perfeita. A mão era perfeita. Era como se o anel tivesse sido feito para a mão, e a mão para o anel. Como se o ouro comum tivesse sido feito para o ouro branco, e o branco para o comum. Como se Franco se encaixasse em Júlia, e Júlia em Franco, e apesar das diferenças, eternizassem a união. Heterogênea, porém homogênea. Que jóia perfeita.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Gerundiando
Ando
Aprendo
Vagando
Vendo
Ouvindo
Vivendo
Sentindo
Amando
E ando
ando
num gerúndio
sem fim
eternizando
o aprendizado
aperfeiçoando.
Aprendo
Vagando
Vendo
Ouvindo
Vivendo
Sentindo
Amando
E ando
ando
num gerúndio
sem fim
eternizando
o aprendizado
aperfeiçoando.
sábado, 10 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Chocalho
Chacoalha Chocalho,
Chacoalha e chapisca
Os torrentes metais da gafieira
Que oram, choram.
Mantém vivo o samba, chocalho
Não chora, chama
Ritmas, amas.
Te escondes atrás
Das graves cordas,
E sucinto sambas
Sambas
Chambas.
Chacoalha e chapisca
Os torrentes metais da gafieira
Que oram, choram.
Mantém vivo o samba, chocalho
Não chora, chama
Ritmas, amas.
Te escondes atrás
Das graves cordas,
E sucinto sambas
Sambas
Chambas.
sábado, 3 de julho de 2010
Deus
Adoro a palavra Deus. Por isso falo muito ela. Não que eu fale em vão, até por que Deus está em tanta coisa que remetemos a esta palavra mesmo que indiretamente. Deus é muita coisa. Deus é o divino, que me liberta, que te liberta, e liberta a quem Ele quiser. É Ele que me deu a vida, e deu a graça dela. A graça. Deus é interjeição, é susto, é alívio e acompanhante dos que vão com ele. Deus é conforto. Por isso uso o nome dele no conforto de meus poemas. E tenho propriedade em usá-lo. Uso-o para algo que é bom, é arte, é belo. Há quem use o nome dele pra fazer riqueza pessoal, ou manobrar fiéis, que são dignos de graça, e vítimas da maldade de quem faz mal uso dessa palavra. Ê palavrinha boa! É sonora ainda por cima! Deus... Deus... Soa como um vento, que é forte no início, mas suave no fim. Deus faz jus ao nome dele, sempre fez, sempre fará. E como todo bom vento, não se pode ver, mas se pode sentir: No próprio vento, ou no verde bom que nos cerca. Deus.
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